terça-feira, 16 de maio de 2017

O ENCONTRO - Página 7

          Enquanto meus olhos teimavam em embaçar as lentes dos meus óculos, como uma forma proposital de impedir de ler aquele bilhete, que por razões incoerentes mas racionalmente incompreensível, tinha grande expectativas, Por instantes divaguei.    Enquanto desdobrava o bilhete, meticulosamente dobrado como a roupa de uma passadeira que depende do seu emprego para levar o sustento a casa, lembrara que em apenas um dia meu coração se encantara por uma menina que aparentava tristeza, mas exalava doçura, tal qual o perfume do nardo de alabastro que invadiu a casa de Simão. Suas mãos, que se esfregavam numa sintonia insana, me encorajaram a conhecê-la e agora eu estava a segundos de saber se minha quimera se transformaria em realidade.
Abri o bilhete e comecei a ler. 

“Oi, desculpe ter saído assim, você foi tão bom comigo que eu não queria abusar mais da sua bondade.
Eu sou um problema, fugi de minha casa e estou tentando voltar e não poderia te envolver ainda mais nas minhas atrapalhadas.
Assim que te encontrei, a primeira coisa que você falou, foi D’us ouvir suas orações, isso aconteceu justamente quando ele ouviu a minha em enviar alguém para conversar comigo, pois estava quase desesperada.
 Talvez você nunca saiba o quanto me ajudou naquele momento e sei que está disposto em me ajudar, para isso gostaria que orasse para que meus pais me perdoassem por tudo que fiz. 
Muito obrigada, se um dia for a Macuco, pode me procurar vou ter um enorme prazer em recebê-lo.  Meu número é...”

          Faltavam os dois números finais. Que isso!  Disse em pensamento, de uma forma que muitos me olharam assustados. Eu não sabia se estava falando sozinho ou pensando alto.  Fiquei desconsertado pela reprovação. 

         Continuamente sacudia o bilhete como se os números pudessem reaparecer daquela parte em que o perfume da senhora apagou os dois últimos números.
O que fazer?  Ligar para todas as possibilidades? Mas seriam cem números a ligar, não teria crédito para isso.  O que vou fazer?

        Apressei-me em chegar ao meu trabalho porque estava muito atrasado e talvez alguém lá pudesse me dar uma sugestão.  Meus passos apressados desviando das pessoas na calçada, lembrava os bons tempos de Mario Andretti na fórmula Indy, quando em circuitos ovais, saia em uma posição bastante desfavorável e necessitava de velocidade e técnica para chegar à frente. 
          Depois de muitos passos largos para chegar ao meu trabalho, ao longe vi uma longa fila para usar o elevador, percebi que eu não era o único a chegar atrasado.  Era esperar ou subir quinze andares.  Não, não conseguiria, vim mais rápido que pude, estava ofegante, suado e desalinhado. Em meus pensamentos não sabia se estava vindo rápido para não chegar tão atrasado ou por ter a esperança de que alguém me ajudaria a descobrir os números que faltavam no bilhete.

Não sabia qual era a maior incógnita, o bilhete faltando dois números, ou meus pensamentos desencontrados.    









Escreva que eu leio e respondo. . . mas ñ xingue