sábado, 6 de maio de 2017

O ENCONTRO - página 6

Antes de ela começar a me dizer qual fora o motivo do favor.   Ela como toda senhora gosta de falar sobre o saudoso marido e o quanto ele foi bom para ela, emendando sempre uma qualidade a outra, como no dia em que foi buscá-la no serviço, por estar chovendo e ela sem guarda-chuva.  Eu fingia que a ouvia atentamente, mas aguardava ansiosamente que ela retomasse a conversa no ponto em que eu a perguntei sobre o favor, e enfim, que se encerrasse toda sua história.  Enquanto ela continuava a contar, eu divagava, percebendo o quanto angustiante pode ser um minuto... dois minutos... três minutos... sei lá.  Não conseguia mais dar conta do tempo.
 
Dei-me conta sim, que não fazia sentido estar ali, daquele jeito, como alguém que se levanta assustado no meio da noite, após um pesadelo.  Meus pensamentos se atropelavam como uma multidão de pessoas refugiadas, famintas, atrás dos caminhões de ajuda humanitária em busca de um pão.

Ao meu redor, diminuía a cada estação a quantidade de pessoas e era isso que me fazia perceber que meu tempo estava se esvaindo tal qual rios do nordeste do Brasil que estão desaparecendo a cada verão.

Foi quando a senhora se desculpou e disse:
- Ah, meu querido, desculpe.  Eu aqui falando sem parar... Mas o que você me perguntou mesmo?
Um misto de ironia e alívio passaram a correr junto com meu sangue por minhas veias, e ao subir para meu cérebro, trouxe de volta o oxigênio necessário que daria claridade as minhas intenções.  

Então, sorri e lhe respondi:
- A senhora disse que ela lhe pediu um favor.  Gostaria de saber qual foi o favor.
- Ah, sim.  Ela tentou ver onde você estava e não conseguiu, aí me deu um bilhete e me pediu para te entregar.  Sabe meu filho, eu sou boa de guardar aparência de uma pessoa.  Uma vez quando ainda trabalhava, eu era enfermeira, trabalhei anos no Grafe Guinle.  Ih, aquele hospital era muito bom, hoje está uma bagunça.  Você sabe, agora ninguém quer mais pensar nos outros, só em si mesmo. . .

Numa tentativa de interrompê-la de modo ameno, concordava, maneando a cabeça e olhava constantemente o relógio, apesar de que nos dias de hoje as pessoas só usam o relógio como um acessório e às vezes são tão complexos que fica difícil até mesmo saber das horas.  Mas nesse caso não o era, meu relógio analógico me mostrava, não a hora, mas que a estação final Pedro II estava chegando.  Então, segurei as duas alças da minha mochila, ajeitei minha jaqueta e tentei me levantar. 

Minha tática funcionou e fui impedido pela senhora. Ela segurou meu braço e me disse:
- Bem, ela me deu um bilhete. 
Ao pegar o bilhete foi abrindo e falando:
- Que letra linda ela tinha.  Tenho certeza que é uma menina de boa educação.

Minha vontade era tomar o bilhete da mão dela, assim como náufrago agarra-se a algo que lhe dê condições de lutar pela vida. Como não poderia, me restava acreditar que ela logo me daria o bilhete. Foi quando outra surpresa nada agradável me sobreveio.
- Ué, cadê o bilhete?  Eu o deixei aqui. . .
Disse ela remexendo na sua bolsa, que mesmo sendo uma mulher idosa, mantinha o padrão das bolsas de mulher, que nesse caso, havia muitos mais papéis e sacos plásticos que o padrão feminino produz.

Depois de muito remexer, ela abre outra bolsa dentro da grande, e pega o bilhete.  Meus olhos sorriram em contraste com a minha razão que insistia em me pedir para ter cautela.  Por que tanta expectativa em alguém que acabara de conhecer, que na verdade nem tinha conhecido ainda.
- Aqui está!

Quando peguei o bilhete devo ter sentido a mesma emoção que um garimpeiro, que após deixar toda a família para trás, saiu mata adentro em busca da solução de todos os problemas e finalmente encontra a pepita de ouro. 
- Obrigado pela sua ajuda.  Mas que falta de educação a minha.  Nem perguntei o seu nome.
- Que isso meu filhinho.  Já vivi muito e sei o quanto você está ansioso para ver o que está nesse bilhete.  Eu que peço perdão por demorar, mas você deve ter uma vózinha também e sabe o quanto falamos demais.

Enquanto a senhora ia embora, junto com os outros transeuntes, pela primeira vez meu pensamento deixou aquele momento louco que estava vivendo e me levou, através do embalo das últimas palavras da senhora, para um lugar muito distante.  Ela disse que talvez eu tivesse uma avó... e eu não tinha mais.  Ela se fora, e mesmo há tanto tempo ainda não conseguia me acostumar a sua ausência.

Voltei ao bilhete e naquele turbilhão de sentimentos de saudades e incerteza, o abri.